
Depois do carnaval o ano começa. Por que são necessários aqueles dolorosos dias entre o céu de férias privilegiadas dos desprivilegiados e a festa infernalmente momesca? De que valem as ficções pedagógicas e industriais do trabalho desumano, nas quais livres semanas de ação mascaram uniformes que camuflam colares floridos, fígados ávidos e sandálias ansiosas?
Depois do carnaval o tempo passa a correr normalmente – e normalmente corre o tempo rápido em tempo. Serão reuniões milhares, candidaturas postas em postes; postes candidatos e postas de candidaturas assadas em molho madeira – ou cara de pau. Coligações coaguladas se coalizam somente após o carnaval – teremos palanques armados, suspeitas confirmadas e votos definidos. Veremos quem é quem, mas máscaras a cair, sabemos, só depois do carnaval.
Antes do carnaval temos ensaios – de blocos e alianças. A folia política ora atua como quadras que explodem e avenidas que desabam; ora como silêncio pré-momesco aliado a desfiles sem defeitos. Antes do carnaval temos treinos, preparações, dicas e indicações – jamais jogos, ações, respostas e leis. Antes do carnaval, tudo é quase, tudo é pré, tudo é semi, metade, meio meia. Antes do carnaval, o Brasil é apenas um povo pré-mestiço e cansado, com belezas artificiais, afinal, a natureza, crente que é, retirou-se nesse período de pecado.
Depois do carnaval nasce o ano, temporão esse guri. Depois do carnaval, recolocamos a fantasia que usamos o ano inteiro e deixamos cair em fevereiro. Depois do carnaval, as fichas serão limpas e os mentirosos terão de se travestir em Colombinas a fugir em caminhos que levam ao fundo. Depois do carnaval, a cidade se prepara para o carnaval do ano que vem.
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