Publicado no Jornal Folha dos Lagos, em 14 de janeiro de 2011.
A gente reclama muito da vida, mas, no fundo, a gente só quer mesmo um chuveiro quente. Afinal, melhor do que um chuveiro quente, apenas um outro chuveiro quente – dois na casa não é nada demais.
Com um chuveiro quente, quem promovia desculpas para tomar seu banho diário acaba tomando dois por dia. Uma casa em obras só fica irritante quando não possui um chuveiro quente – quem xinga, ao final de um dia de quebradeiras, se puder se banhar em águas caudalosas?
Até a conta de luz, ao final de um mês de dores, torna-se constantemente justificável, quiçá louvável, quando se possui em casa um chuveiro quente. A tradição dos banhos rápidos para a fidelidade aos compromissos é substituída pelas duchas relaxantes, mais supérfluas e essenciais que as duras reuniões, regadas a cheiros velozes de quem não teve tempo para experienciar cachoeiras urbanas e caseiras de molhados tiros superiores aos 30 graus.
Um chuveiro quente embaça espelhos e salva desesperos com velhices, rugas, doenças, manchas, acnes e outros defeitos – um chuveiro quente elimina problemas. Um chuveiro quente também embaça vidros de boxes e permite apenas a visão de curvas e silhuetas – bem mais interessantes que os detalhes corporais e seus defeitos invisivelmente notáveis. Ele motiva o fim de duras barbas e faz mitos os ventos frios de uma noite sem muros. Ele limpa, lava e abre poros. Ele expurga infecções, cura peles e doura pelos. É um achado social, quase uma nuance doutrinária espiritual.
Há quem diga, inclusive, que chuveiros quentes emagrecem, curam qualquer câncer, salvam almas desviadas e – pasmem – convertem maridos infiéis. Nunca se ouviu falar, entretanto, em chuveiros de temperaturas elevadas que afastam esposas de seus amantes: chuveiros tais não operam milagres, assim como não revertem índoles de políticos desonestos, não criam neurônios em flamenguistas nem humildade em mangueirenses.
Chuveiros quentes transformam a vida em dias de melhores batalhas. Só são difíceis de pagar. Mas há quem diga que aqueles que se dispõem a tomar banhos gelados diários em terras de frios pujantes, recebem visitas constantes de anjos dourados e preguiçosos, que oferecem banhos calientes em troca de pequenas esperas glaciais – por isso há tão poucos chuveiros quentes naquela cidade esquecida
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